História de Maragogipe

O Melhor da História de Maragogipe você encontra no Blog: historia.zevaldoemaragogipe.com

História de Maragogipe

O Melhor da História de Maragogipe você encontra no Blog: historia.zevaldoemaragogipe.com

História de Maragogipe

O Melhor da História de Maragogipe você encontra no Blog: historia.zevaldoemaragogipe.com

História de Maragogipe

O Melhor da História de Maragogipe você encontra no Blog: historia.zevaldoemaragogipe.com

História de Maragogipe

O Melhor da História de Maragogipe você encontra no Blog: historia.zevaldoemaragogipe.com

Pesquisa Google

domingo, 27 de maio de 2012

Bento de Araújo Lopes Villas Boas, o Barão de Maragogipe

O barão de MARAGOGIPE foi Bento de Araújo Lopes Villas Boas que faleceu na Baia em 28 de Junho de 1850.Era Cavaleiro da Imperial Ordem de Cristo.

Colaboradora Regina Cascão

Bento de Araújo Lopes Vilas Boas - agraciado com o título ( Dec 12.10.1825 ) de Barão de Maragogipe. Título de origem toponímica, tomado da cidade do mesmo nome, no estado da Bahia. Nascido em 1760 e falecido a 28.06.1850 na Bahia. Casado com Cândida Luiza Vilas Boas. Seus descendentes fizeram aliança, entre outras, com as famílias Bettencourt, Berenguer César, Barros Pimentel, Pires de Albuquerque, Ferrão de Pina e Mello, Moreira de Pinho ( família do conde Sebastião Pinho ), Carvalho de Menezes, Waitz e Pinto Soares.

Fonte: Dicionário das Famílias Brasileiras, de Carlos Eduardo Barata e AH Cunha Bueno Verbetes: Maragogipe, Barão de; família Vilas Boas

Bento de Araújo Lopes Villas-Boas nasceu na então Vila de São Francisco da Barra do Sergipe do Conde, Recôncavo Baiano. Filho do Capitão de Milícias Luiz Lopes Villas-Boas e de sua mulher D. Ana Joaquina de Araujo e Azevedo. Batizado na Sé Primacial do Brasil a 2 de agosto de 1775, faleceu em Salvador a 28 de junho de 1850. Casou-se a 8 de janeiro de 1828, então homem maduro, com D. Cândida Angélica Rosa Ribeiro Sanches, Baronesa de Maragogipe, nascida e falecida também na Capital da Província da Bahia, filha de Ladislau Ribeiro Sanches e de sua mulher, D. Eufemia Ursula Ribeiro Sanches, deixando descendência. (...) Coronel de Milícias. (...) Foi vereador da Câmara de S. Francisco do Conde em vários mandatos e foi membro do Conselho Geral da Província de 1828 a 1830 e de 1831 a 1834. Cavaleiro fidalgo da Casa Real Portuguesa, fidalgo cavaleiro da Casa Imperial, comendador da Imperial Ordem de Cristo e dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro. (...) Senhor dos Engenhos Santo Antônio, herdado dos pais, Bom Gosto e Pimentel, estes em São Sebastião do Passé (...).

Fonte: artigo "Ascendência Varonil do Barão de Maragogipe (1775-1850) - Herói da Independência da Bahia" , de autoria de Caio César Tourinho-Marques, Procurador Federal e Presidente da Seção do Brasil Setentrional da Associação da Nobreza Histórica do Brasil. In "Revista do Instituto Genealógico da Bahia", nº 24/2010, Edição Comemorativa - 65 anos, pp. 91 e ss.

sábado, 12 de maio de 2012

Navio Maragojipe está totalmente destruído na Base Naval de Aratu

O navio maragojipe esta totalmente destruído na Base Naval de Aratu é muito triste para a comunidade Maragojipana assistir o que foi o seu principal meio de transporte em ligação com a capital Baiana Salvador sendo destruído com o tempo.

Para a maioria dos moradores quando este comentário vem atona nas rodas de amigos na cidade a revolta e tristeza são visíveis nos semblantes dos que navegaram e de quem tomou conhecimento por moradores da cidade.


O Maragogipe, de fabricação alemã, navegou por 35 anos, entre 1962 e 1967, nas águas da Baía de Todos os Santos. Antes das rodovias, a embarcação era vital para quem precisava locomover-se entre Salvador e as comunidades do Recôncavo, partindo de Maragogipe para Salvador, pela manhã, e retornando à tarde.

Com capacidade para 600 passageiros, o navio chegava a comportar o dobro disso na festa de São Bartolomeu, uma das mais tradicionais do Recôncavo. Alimentos e outras mercadorias também eram transportados pelo Maragogipe, que cumpriu, assim, um papel importante para a economia regional. O navio possui 46,15 m de comprimento, dos quais 42,50 m de linha de água, calado de 2,35 m e deslocamento leve de 364,7 toneladas.

O navio havia sido doado à Prefeitura de Maragogipe em setembro de 2001. A prefeitura anunciou a intenção de implantar um museu náutico, mas não levou o projeto adiante. O Termo de Reversão de Bens Móveis foi assinado, em dezembro passado, com o novo prefeito do município, Carlos Hermano Albuquerque Baumert, anulando a doação.

A situação do navio, que estava com problemas de má conservação, foi comunicada à Superintendência de Serviços Administrativos - SSA, da Secretaria da Administração (Saeb), através da Capitania dos Portos, sendo tomadas todas as providências necessárias para a retomada pelo Governo do Estado.

O ofício da Saeb ao novo prefeito, Carlos Hermano Albuquerque Baumert, solicitando providências e posicionamento quanto ao Maragogipe, foi expedido após decisão tomada a partir de uma reunião envolvendo a Saeb, o CRA e a Capitania dos Portos.

O navio Maragogipe foi arrematado por R$ 204 mil, em leilão promovido pela Secretaria da Administração do Estado, na Marina e Estaleiro Aratu. O ágio foi de 204,5% sobre o preço mínimo de R$ 67 mil. Outra boa notícia é que o navio não sairá da Bahia, e será reformado para atividades turísticas. O arrematante, Jeová Ferreira, que disse representar um grupo de empresários baianos, explicou que o navio "poderá ser utilizado para transporte, para atividades de lazer ou como restaurante".

Ferreira disse que o navio precisará de uma ampla reforma, mas que a sua recuperação é viável. Outro atrativo para a aquisição do Maragogipe, segundo ele, é o valor simbólico do navio, que navegou por décadas na Baía de Todos os Santos, transportando passageiros e mercadorias entre Salvador e a cidade de Maragogipe.

O leiloeiro Miguel Paulo da Silva disse que o resultado superou as suas expectativas. "Foi uma ótima venda", afirmou. Ele ressaltou, ainda, que nos momentos finais o leilão foi bastante disputado, lance a lance, entre um grupo empresarial de Santa Catarina e o grupo baiano que acabou conseguindo o arremate.

"Ao lado do bom resultado do leilão, com ágio significativo, foi importante também o fato de o navio ter ficado na Bahia", afirmou o superintendente de Serviços Administrativos da Secretaria da Administração, Phedro Pimentel. Ele destacou que a Secretaria recebeu o apoio da Agerba, na avaliação do preço mínimo para o leilão, do CRA, no acompanhamento para evitar problemas ambientais, e da Petrobrás, na limpeza dos tanques.

Esses serviços foram necessários depois que o navio foi retomado pelo governo, em dezembro, junto à prefeitura de Maragogipe, que pretendia implantar um museu náutico, mas não levou o projeto adiante. A doação ao município havia sido feita em setembro de 2001. O Termo de Reversão de Bens Móveis foi assinado, em 5 de dezembro, com o novo prefeito do município, Carlos Hermano Albuquerque Baumert, anulando a doação.

Fonte: Visão Cidade

sábado, 14 de abril de 2012

Como nasce um paradigma?


Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro havia uma escada e sobre ela, um cacho de bananas.

Cada vez que um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os pesquisadores lançavam um forte jato de água fria sobre os que estavam no chão. Não custou muito para que cada vez que um macaco ameaçava subir a escada, os demais o enchessem de pancadas.

Em pouco tempo nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.

Os cientistas substituíram então um dos cinco macacos.

A primeira coisa que o novo macaco fez foi tentar subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada.

Um segundo macaco foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo da surra ao novato.

Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato.

Um quarto e, finalmente o último dos veteranos foi substituído.

Os cientistas ficaram então, com um grupo de cinco macacos que, nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.

Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria:

“Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui..”

Já dizia Albert Einstein: “É mais fácil desintegrar um átomo do que eliminar um preconceito”.

Dicas úteis: Como estudar?

Mais um ano letivo se inicia e é sempre bom relembra algumas orientações sobre o melhor modo de acompanhar as aulas, ler um livro, um capítulo e outras dicas também úteis.

As "dicas" são importantes, muitas vezes usadas por alunos em qualquer parte do mundo, mas... "elas não são uma verdade absoluta para todo mundo". O que cada pessoa deve fazer é "criar" sua própria técnica de estudo.

Mas, se está com alguma dúvida. Aqui segue algumas dicas:



1º planeje a semana, o mês, o semestre e o ano de modo a estar certo de que foi alocado o tempo necessário para cada disciplina.

2º dê prioridade as atividades mais importantes ou mais difíceis.

3º reserve tempo adequado para um intervalo de descanso. Estudar quando se está cansado e “antieconômico”. Procure descansar quando estiver fatigado.

4º entender é a chave para aprender e aplicar o que foi aprendido.

5º Faça todos os exercícios propostos em aula. Discuta as soluções encontradas com o professor, pois muitas vezes elas podem estar incorretas.

6º Aprenda a tomar notas de aulas. Não é suficiente anotar o que o professor escreve no quadro; anote também os pontos relevantes do que ele diz.

7º procure ler as notas de aula sempre que possível depois de cada aula (e não somente na véspera das provas). Marque os pontos importantes e faça resumos.

8º Assistir à aula não quer dizer estar de corpo presente em sala. Preste o Máximo de atenção e não deixe para esclarecer depois as duvidas que surgirem.

9º Acompanhar as aula implica ter em dia o assunto das aulas anteriores.

10º Antes de começar a ler um livro ou um capítulo de livro é interessante fazer uma leitura em diagonal, ou, seja, olhar rapidamente o texto. Isto dará uma idéia geral do, assunto e do investimento de tempo necessário para a leitura total.

11º durante a leitura,pare periodicamente e reveja mentalmente os pontos principais do que acaba de ser lido. Ao encontrar dificuldades volte a elas sistematicamente.

12º Tome notas do essencial do que está lendo.

Conheça o SISU - Sistema de Seleção Unificada


Agora os estudantes podem avaliar em quais instituições têm chances de conseguir uma vaga.

A relação também informa a relação candidato-vaga para cada curso e o número de inscrições que cada instituição já recebeu. Os candidatos que têm direito a uma vaga através de políticas afirmativas devem entrar no sistema para acessar as vagas a que estão aptos.

As notas de corte divulgadas consideram o peso atribuído a cada uma das provas do Enem pelo curso ou pela instituição. Se o candidato não quiser alterar seu cadastro e não obter a nota suficiente para a carreira escolhida, o sistema emitirá uma mensagem informando que ele não pode entrar na disputa.


PERGUNTAS FREQUENTES
O que é o Sisu?
O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) é o sistema informatizado gerenciado pelo Ministério da Educação (MEC) no qual instituições públicas de ensino superior oferecem vagas para candidatos participantes do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem).

Quando acontece?
O processo seletivo do Sisu é realizado duas vezes ao ano, sempre no início do semestre letivo. A inscrição é gratuita, em uma única etapa e é feita pela internet.

Como funciona?
A cada edição, as instituições públicas de ensino superior que optam por participar do Sisu ofertam vagas em seus cursos. Ao final do período de inscrições, são selecionados os candidatos mais bem classificados dentro do número de vagas ofertadas.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Terreiro lIê Axé Alabaxé,– “"A Casa que Põe e Dispõe de Tudo"

Do Blog: Hoje uma professora me procurou desejando saber um pouco da história do Terreiro lIê Axé Alabaxé,– “"A Casa que Põe e Dispõe de Tudo". Sabendo que seria do agrado de muitos maragogipanos que desejam conhecer a nossa história, resolvi publicar esse texto e uma entrevista concedida pelo Babalorixá Edinho encontrada no site (http://alabaxe.xpg.uol.com.br/)

Oxóssi


O Terreiro lIê Axé Alabaxé,– “"A Casa que Põe e Dispõe de Tudo"  
A cada ano, após a colheita, o rei de Ijexá saudava a abundancia de alimentos com uma festa, oferecendo à população inhame, milho e côco. O rei comemorava com sua família e seus súditos só as feiticeiras não eram convidadas. Furiosas com a desconsideração enviaram à festa um pássaro gigante que pousou no teto do palácio, encobrindo-o e impedindo que a cerimônia fosse realizada.

O rei mandou chamar os melhores caçadores da cidade. O primeiro tinha vinte flechas. Ele lançou todas elas, mas nenhuma acertou o grande pássaro. Então o rei aborreceu-se, mas mandou-o embora.

Um segundo caçador se apresentou este com quarenta flechas o fato repetiu-se novamente e o rei mandou prendê-lo. Bem próximo dali vivia Oxóssi, um jovem que costumava caçar à noite, antes do sol nascer ele usava apenas uma flecha vermelha. O rei mandou chamá-Io para dar fim ao pássaro. Sabendo da punição imposta aos outros caçadores, a mãe de Oxóssi, temendo pela vida do filho, consultou um babalaô e os obis mostraram que, se fosse feita uma oferenda para as feiticeiras, ele teria sucesso.

A oferenda consistia em sacrificar uma galinha. E na hora da entrega, dizer três vezes: que o peito do pássaro receba esta oferenda! Nesse exato momento, Oxóssi deveria atirar sua única flecha. E assim o fez, acertando o pássaro bem no peito. O povo então gritava: Oxó Wussi (Oxó = popular), passando a ser conhecido por Oxóssi.

O rei, agradecido pelo feito, deu ao caçador metade de sua riqueza e a cidade de Kêto "terra dos panos vermelhos", onde Oxóssi governou até sua morte, tornando-se depois um orixá.

Manoel Rufino
No candomblé existe o fundamento, que corresponde a todo conteúdo simbólico para o entendimento da religião. É neste espaço que se dá o domínio, o uso e a utilização de um elemento fundamental - o Axé , força vital produzida pela sabedoria daqueles que fazem a mediação entre o sagrado e o mundo dos homens. A transmissão desse Axé acontece de forma hierarquizada, onde a relação entre os orixás e seus filhos possibilita a troca desta força vital, traçando e determinando destinos. Como cita Monique Augras: "Recebe-se o Axé das mãos e do hálito dos mais antigos (pessoas que conservam os textos sagrados na memória), de pessoa a pessoa, numa relação interpessoal dinâmica e viva. Recebe-se através do corpo e em todos os níveis da personalidade, atingindo os planos mais profundos pelo sangue, os frutos, as ervas, as oferendas rituais e as palavras pronunciadas". (1983, p.68).

É neste contexto que se dá a criação do Terreiro Ilê Alabaxé, regido pelo orixá Oxossi.

A linhagem ancestral do llê Axé Alabaxé tem origem no momento em que Miguel Arcanjo, do Orixá Xangô Airá, do Terreiro llê Amoraxó, inicia o sr. Manoel Rufino de Oxum - lyaminkilanje, cuja dijina era Urudasamba, do Jlê Axé Tomin Bokun, de "nação" bantu, situado no Beiro e falecido em 21 de maio de 1983.

Em 10 de Janeiro de 1952, na localidade de São Francisco do Paraguaçu, no município de Cachoeira, no Terreiro llê Jitundê, Sr. Lício de Souza Moraes foi iniciado pelo Sr. Manoel Rufino (Foto Acima) para o orixá Omolú.

O Ilê Jitundê foi fundado em 1921, pelo Babalorixá Lício ainda quando abiã (noviço), onde realizava suas festas há mais de quinze anos antes da sua iniciação. O Ilê Jitundê, após o falecimento do Babalorixá Lício em 26 de outubro de 1986, continua mantido pelo Babalorixá Edinho, conservando o calendário de festas juntamente com seus irmãos. Verger. Pierre. Lendas Africanas dos Orixás, Editora Corrupio, São Paulo, 1987.

Segundo Pai Edinho, depois que Pai Lício faleceu, ele assumiu a posição de Babalorixá no Ilê Jitundê, pois Pai Lício havia registrado na Federação de Culto Afro o cargo de sucessão dele. Portanto, todas as obrigações realizadas no Ilê Jitundê têm Pai Edinho à frente. Pai Lício sempre foi um amigo, segundo relata Pai Edinho. Nas obrigações que eram realizadas no Ilê Jitundê ele se fazia presente, assim como nas obrigações que eram realizadas no Ilê Alabaxé, Pai Lício também participava. O calendário de festas do llê Jitundê mantém-se nas mesmas datas: 10 de Janeiro acontece a festa para o orixá Omolu dia de Santa Cruz ou Corpus Christi se realiza a festa para Oxossi e no dia 29 de Junho, dia de São Pedro, acontece a festa para Xangô.

Pai Edinho foi iniciado pelo Babalorixá Lício de Souza Moraes em 2 de Fevereiro de 1964, aos 17 anos, sendo o dofono (primeiro iyaô na iniciação) de um barco de três iyaôs - Oxossi, Nanã e Obaluaê. Cumpriu todas as obrigações de 01,03,07 e 14 anos com Pai Lício.

Em 2 de fevereiro de 1971, pai Edinho torna-se Babalorixá e em 1973 funda o Terreiro Ilê Axé Alabaxé, de "nação" Kêto, situado no município de Maragojipe, no Recôncavo da Bahia. Segundo Pai Edinho, tudo aconteceu a partir de um problema de saúde, quando mandaram que ele procurasse uma casa. Lá, ele fez os trabalhos e a primeira obrigação.

Permaneceu por dois anos como abiã (não iniciado), estava com 14 anos, sem que melhorasse a sua saúde. Após a iniciação os problemas foram sanados, o que possibilit.ou Pai Edinho trabalhar, pagando as obrigações. Após os sete anos de iniciado, instalou-se onde atualmente é o Ilê Alabaxé "

Era ainda um chalé, uma casinha humilde, eu consertei, reformei e trouxe o meu santo. Com dois anos de iniciado eu comprei, era dia 13 de junho. É aqui a minha morada. Eu quis fazer para o meu Orixá".

As dificuldades apontadas por Pai Edinho não o desanimaram, pois contou com a cooperação de pessoas a ele ligadas por laços de afetividade, como Sr. Domingos, que exerce o cargo de Axogum, Nunga, Dona Mô e Sr. Hermano, que o apoiaram durante seu resguardo na iniciação e durante a sua trajetória religiosa. Segundo relata Pai Edinho, quando ele fundou o Terreiro teve que arranjar fio de telefone, para colocar luz. No barracão as pessoas comiam e dormiam, a cozinha e o banheiro eram cobertos de lona. Houve muita dificuldade, mas sente-se vencedor.

Hoje o Ilê Alabaxé é uma referência religiosa no município de Maragojipe e em outras localidades, pois conta com mais de 200 filhos, em Maragojipe, Salvador, Sapeaçu, Cruz das Almas, Feira de Santana, Alagoinhas, Candeias, Madre de Deus, Rio de Janeiro, São Paulo, Belém do Pará, Minas, Rio Grande do Sul e Estados Unidos.

A relação familiar existente entre Pai Edinho, seus irmãos e filhos, baseada principalmente no respeito aos preceitos religiosos, faz com que os laços se tornem mais sólidos e por isso o companheirismo e a solidariedade se fazem presentes no Ilê Alabaxé.

Segundo Vivaldo da Costa Lima. (2003p 161): "Os laços familiares criados no candomblé através da iniciação no santo não são apenas uma série de compromissos aceitos dentro de uma regra mais ou menos estrita, como nas ordens monásticas e fraternais laicas, iniciáticas ou não são laços muito mais amplos no plano das obrigações recíprocas e muito mais densos no âmbito psicológico das emoções e do sentimento. São laços efetivamente familiares: de obediência e disciplina de proteção e assistência de gratificação e sanções de tensões e atritos - tudo isso existe numa família e tudo isto existe no candomblé".

A convivência entre as pessoas que fazem parte do Ilê Alabaxé é retratada através do relato de Pai Edinho: "Eu tenho clientes de 40 anos que ainda me acompanham. Minhas três primeiras filhas continuam comigo, vão fazer no dia 06 de Agosto próximo 33 anos de santo. São minhas amigas, uma vai fazer 80 anos em fevereiro, já está se arrumando para a festa. Nós tínhamos urna Ekede-Iyabassé (zeladora da cozinha para os orixás) Maria Gertrudes da Conceição.

Tombamento do Terreiro de Candomblé Ilê Axé Alabaxé
Entrevista:
Babalorixá Edson dos Santos ( Pai Edinho do Alabaxé )

P. Quem foi Miguel Arcanjo?

Miguel Arcanjo
R. Miguel Arcanjo foi uma pessoa muito importante pra a minha vida. Porque foi a pessoa, o Babalorixá, que deu iniciação ao meu Avô de Santo, Rufino do Beiru. Mjguel Arcanjo deixou uma parte muito rica de Filhos, porque ele teve uma mão abençoada por Olorum e que todos os Filhos que ele botou no mundo tiveram progresso na vida e tiveram uma virtude muito grande e muito importante no Axé. Foi ai que ele fez o senhor Rufino do Beiru, d'Oxum, que veio reinar no Beiro, foi muito conhecido por todos os Babalorixás e lalorixás importantes, como dona Menininha do Gantois, que era pessoa que dava muito amor, muito carinho à seu Rufino. E outras lalorixás, Babalorixás. Ele era muito respeitado na sua religião e na sua maneira de ser. E de lá do Beiro ele trouxe o Axé da Casa dele e veio trazer ao meu Pai de Santo, em São Francisco, Lício de Souza Moraes. Lício foi iniciado em São Francisco do Paraguaçu, pelo Babalorixá Rufino d'Oxum.

P. Qual era o Orixá de Miguel Arcanjo?

R.Airá. a arixá de cabeça dele era Airá. Ele era do Terreiro Amoraxó, conhecido como o Babalorixá do Amoraxó, em Salvador. O Terreiro d'Oxum, de seu Manoel Rufino, vai de 80 a 90 anos de fundado.

Lício de Souza - Ilê Jitundê
P. a senhor poderia falar do Terreiro Jitundê?

R. O Ilê Jitundê foi fundado pelo Babalorixá Lício de Souza Moraes, ainda sendo Abiã. Ele tinha roça de candomblé, já tàzia as suas festas há mais de 15 anos. É quando o senhor Manoel Rufino veio pra São Francisco do Paraguaçu recolher ele. Que veio com Zinho Peixeiro - que é vivo ainda. Mutimuzambi, que já foi, foi Mãe Pequena dele e o Santo foi feito ai em São Francisco do Paraguaçu, em 1° do ano de 1952. Meu Pai de Santo foi iniciado em 1952, mas já tinha Casa aberta quando o senhor Manoel Rufino veio fazer o Santo dele. E de lá ele veio ter outros Filhos de Santo, antes de mim. Meu Barco foi em 64, com 3 Iyaô. Barco de 3: Dofono d'Oxossi, que sou eu minha Dofonitinha de Nanã, Nair, e minha Fomo d'Obaluaê. O nome do Orixá foi no dia 2 de fevereiro de ]964. Eu tinha 17 anos.

P. Porque o senhor se iniciou?

R. Por doença, por necessidade própria, eu tive de recorrer ao candomblé. Destino da vida. E eu fui à Casa de uma pessoa que eu nem conhecia. E Ia foi o Santo. O lugar que o Orixá quis, aceitou. E eu fiz o Orixá. Iniciei fazendo Santo, cumpri minha obrigação de 1 ano, 3 anos, 7 anos, 14 anos, 21 anos, com o mesmo Pai de Santo. Eu só tive um Babalorixá. Cumpri todas as minhas obrigações, foi meu amigo até a hora que Deus levou. Quando ele ia recolher Iaô eu ia pra a Casa dele. Quando eu ia recolher Iaô ele vinha pra a minha Casa. Às vezes ele viajava, deixava-me tomando conta dos filhos de Santo dele, eu ainda Iaô. E depois que eu tomei o cargo eu trouxe meu Santo e dei continuidade a Roça. Nunca faltei a uma festa na Casa de seu Lício.

Falando sobre a mãe:

Minha mãe sofreu muito por não tratar. Chegou ao ponto de ir pra uma Casa, em Salinas, de dona Vitória, pra fazer as obrigações. Fazer alguma coisa. E quando meu pai tomou conhecimento que ela ia raspar a cabeça, meu pai foi e tirou ela. Não deixou fazer a obrigação. Nisso, minha mãe ai começou se acabando. Bebia de cair na rua, eu garotinho saia pra ir buscar minha mãe. Eu a panhava levava pra casa, ela saia de novo pra ir beber e ai pronto: passou pegar um escravo. O escravo bebia, depois quebrava a garrafa, comia aquele vidro, que era um sufoco na família. É ninguém gostava e ninguém aceitava. Ela não deixava a gente ir em candomblé ver nada. Ela não deixava. E minha mãe, tinha uma parte que ela não aceitava, mas na mesma hora ela sabia que existia um negócio que pegava ela. Ela perdia os sentidos, mas sabia que pegava. Ela não desfazia, mas não aceitava. Quando foi no dia 2 de julho, primeiro ela teve um derrame, que ficou 3 anos em cima da cama, aleijada. Eu, com 8 anos, trabalhava pra sustentá-Ia. Eu ia pro mangue tirar marisco, tirar madeira de mangue pra o povo fazer chouriça. Ela trabalhava na Suerdieck, não pôde mais trabalhar. Eu ia ver a pesada de fumo e trazia pra casa eu que abria e levava. Eu era de menor e não podia, mas, por eu ser o filho que estava sustentando a mãe então era feito, na Suerdieck. Trabalhava em casa de fazer chouriça, carne de fumeiro, essas coisas casa 9ue fazia vinagre, eu ia fazer entrega de vinagre nas vendas, pra ganhar dinheiro. Aqui tem um l~gar que chama Japão, Ladeira do Japão. Então aquelas casas não tinham água encanada. Eu saía com lata na cabeça- carregando, enchendo os barris, eram barris de madeira. Enchendo pra no sábado ter aquele dinheiro pra fazer uma feirinha pra sustentar minha mãe. Até o dia que ela pediu, queria que eu entrasse na Escola de Menores, porque sabia que ela ia morrer e eu ia ficar à toa. Chorou muito, sabia que eu ia ficar à toa. Quando foi 2 de julho eu fui pra uma casa em Itacaré, quando eu fui ver a Escola de Capanema, de escrever. Ai me falaram que tinha um candomblé em ltacaré e eu passei. E nesse candomblé que eu passei esse caboclo me pegou, 2 de julho, e disse que não ia embora. Que não ia embora por que ele disse que era da minha mãe e minha mãe só teve vida até aquele dia. Que ele já tinha me pego e que ia ficar comigo. Isso foi em 2 de julho - ele não foi embora - de 1961. No dia 3 (tinha uma novela Bianca, que era no radio) ela tava escutando quando ela passou maL Ela chamou minha irmã: ''Tonha, me segure aqui que eu estou morrendo". Tonha disse: "mãe, a senhora" . "Tô, minha filha. Panhe a vela de São Jorge e bote na minha mão. É verdade. “Edinho tão longe e eu estou morrendo”. Ela morreu 9 horas da noite, de 61 3 de julho. Ele ficou comigo do dia 2 de julho até o dia 9, sem ir embora. Sem eu beber, sem comer, sem acordar, sem nada. Quando eu acordei, foi embora. "Diga a ele que vá". Ai eu vim pra aqui pra Maragojipe. Tomei um impacto, porque eu não sabia de nada. Foi aquele desespero e tal. Ai tomei ódio, não quis mais entrar no candomblé.

P. Onde ela morreu?

R. Aqui em Maragojipe. Ela morava aqui em Maragojipe. Ai eu não queria mais entrar em candomblé. Nisso, houve um temporal muito forte em Salvador e me chamaram. Caiu um paredão na rua do Céu e me chamaram pra tirar aquele cascalho, pra me dar um dinheiro. Eu fui. Peguei o dinheiro que ganhei e fui, comprei uma roupa preta, comprei uma calça, camisa, botei luto e outra pessoa me chamou. Quando me chamou e eu fui, tomei um corte muito grande e tive inicio de tétano e fui esbarrar no Pronto Socorro, que era no Canela. E achei um médico, que na hora de amputar a perna disse: "gente vocês acreditam em espiritismo? Vá numa Casa ai pra ver alguma coisa". E foram numa Casa, me trouxeram uma coisa, passaram em mim, eu comecei a febre ceder e não cortaram a minha perna. Ai mandaram que eu procurasse uma Casa. Ai eu fui na mesma Casa que eu tinha feito o serviço e ai fiz uma obrigação, que eu fiquei 2 anos na Casa dela dando obrigação, como Abiã. Eu tinha 14 anos. Quando depois de 3 anos, ai o Santo queria ser feito mas ela não raspava. Ela fazia obrigação, mas raspar ela não raspava. Foi ai que depois eu vim tendo doença, tendo crise, passando momentos, dormi na rua em Maragojipe por não ter onde dormir, porque minha família não me aceitava, por causa do candomblé. Passava fome. Mas eu na minha. Eu lavava roupa de noite pra vestir de dia. Mas eu permanecia firme, e dizia: “Eu não o meu Santo. Vou passar o que tiver de passar, mas não deixo meu Santo. Mas depois que eu fiz, passei isso tudo, ai Oxóssi foi pra essa Casa, me levou pra essa casa e na casa que eu fiz o santo na casa do seu Lício.No dia que eu sai da casa de Santo, nunca mais passei fome, nunca mais dormi na rua, e nunca mais vim passar desespero na vida. Agora, vim trabalhar. Quando eu saí do Santo, trabalhei aqui numa fábrica de tapete, de seu Hamilton Leite depois vim trabalhar vim trabalhar na padaria que o pai dele (Seu Domingos) tinha padaria e eu fui trabalhar no balcão e nesse balcão eu aprendi fazer bolo, fazer doce e eu fazia muito doce pra vender, muito bombocado, muito doce de banana. Aquelas tachas de cobre eu batia aqueles doces, fazia 2, 3 tachos. Eu ia pra São Francisco criar Iaô, levava as sacas de açúcar, genipapo, e eu fazia os doces pra vender. Dei muito duro, mas ... porque as vezes o povo faz Santo e quer que o Santo dê na mão. Não é isso. Tem que trabalhar pra o Santo ajudar. E eu trabalhei e o Santo me ajudou.

P. Quem ajudou ao senhor?

R. Quando eu sai do Santo, que eu tirei o meu Kelê, eu vim pra Maragojipe sem saber pra onde eu ia. Sabia que eu ia tirar o Kelê e naquele dia 31 de março de 64, da Revolução, os sinos dobrando em Maragojipe, eu sem saber, cheguei aqui em Maragojipe, fiquei numa casinha, e Mingo foi de moto, de motocicleta, me buscar.

Mingo é Domingos, que é meu irmão de criação. Então ai me trouxe, mas o pai não era ligado a candomblé, assim como a família toda que não era ligada, mas respeitava. E nisso eu vim, primeiro fiquei num biombo uns 8 dias escondido do velho. A mãe sabia. Não tinha energia, não tinha nada, fiquei ali praticamente escondido, até passar, o velho tomar conhecimento. Mas a velha sabia. A empregada que ela tinha foi mulher de um Pai de Santo aqui em Maragojipe, Nunga. Ai botou ela pra cozinhar pra mim. Essa velha ficou cozinhando no meu resguardo. Porque eu levei 1 ano de resguardo. Foi o tempo que eu trabalhei no tapete, de Hamilton Leite. Logo depois Nunga morreu, era velhinho, ai dona Mô passou a fazer a minha comida. Ai veio a me ensinar a fazer os doces e tudo foi normalizando. Eu com 7 anos fiz meu cordão de Axé de 1 a 7 anos, lá nesse biombo que eu morava. Ai botei luz, já cimentei, já melhorei as coisas, e ai as coisas foram melhorando pra mim. Eu tinha interesse em trabalhar, minha irmã já veio morar comigo nesse biombo, separou do marido. Terminei de criar os filhos dela. E ela também, até hoje, ainda vive. Porque quando eu fui fazer Santo eu já trabalhava. Abiã mesmo, que já fazia algumas coisas que meu caboclo era que vinha fazer, não era eu. Se tinha uma pessoa no sanatório, na cadeia, morrendo, era ele quem ia e tirava. Eu não fazia. Esse trabalho grande era ele quem fazia. Quem me ajudou muito foi meu caboclo. Tive a proteção de dona Mô, de seu Hermano, dele eu tinha uma casa pra morar, tinha comida, porque apesar de eu trabalhar mas passei ... fazia parte da família. A velha, mãe dele, (Domingos ).dizia: "O que meus filhos tem direito você também tem". E nós viemos tomando conta e honrando meu Santo, meu Orixá, valorizando, e nisso eu fui trabalhando, vim chegando, paguei as minhas obrigações de 7 anos e foi ai que eu vim pra aqui, ainda um chalé, uma casinha humilde. Eu consertei o chalé, reformei e trouxe meu Santo pra aqui. Com 2 anos de Santo aqui, ai eu comprei. Mas o pai dele (Domingos) fez o que pra mim? Passou a escritura em meu nome. Como eu tinha comprado, isso em 73, ai eu comprei e com essa escritura eu fui no banco e tomei um empréstimo. No BANEB, em Salvador. Paguei com 2 anos, 22 mil cruzeiros. No dia 13 de junho. Ai a velha fez uma promessa a Santo Antonio. Se eu conseguisse comprar isso aqui, porque o velho tinha um débito do INAMPS e ele tinha que vender isso aqui pra pagar as dívidas dos empregados. E eu tinha que ter esse dinheiro, porque ... e ele: ''você vai conseguir, você vai conseguir o dinheiro". E a velha disse, se eu conseguisse pagar, ela: ia rezar 13 novenas pra Santo Antonio. Eu cheguei dia 13, Santo Antonio, era encerrando a dela, que ela rezava do dia 1° até o dia 13. No dia 13 eu chegava com 22 mil e entregava. Ai ela continua as 13 novenas e passei a ser dono do Alabaxé , desta Casa. E ai eu fui lutando, construindo, carregando pedra, meu povo todo, muita gente em Maragojipe me ajudou, vinham aqui, a gente fazia aquela feijoada e o povo vinha trabalhar dia de domingo. Comecei primeiro aqui de madeira, casa de barro. E veio, fui fazendo, fui construindo, fui lutando ... eu não tenho casa fora, mas tenho minha casa do meu Santo. Aqui é a minha morada. Eu quis fazer pra meu Orixá. A dele eu me cubro também com a casa que eu fiz pra ele, porque tudo que eu tenho quem me deu foi o Orixá. E ai nós estamos nessa vida. Eu luto e quero que todos façam com o Orixá como eu faço. Dê amor, carinho, respeito a religião. Porque o Orixá quando ele veio não escolheu, nem preto nem branco. O Orixá gostou da pessoa, ele se ... porque nós temos que valorizar nossa origem, nossa terra. Na minha família houve. Meus antepassados, que meu tataravô foi africano, era escravo, trabalhou nesse engenho. Minha tataravó foi índia. Mas meu tataravô era negro. Eu tenho sangue negro nas veias. E o Orixá é tudo na minha vida.

P. Porque o nome Alabaxé?

R. Ilê Alabaxé foi eu, que em jogo que fui procurei ver e saiu. Alabaxé é o Axé. O Alá é aquilo que cobre tudo. E a outra tradução: Ilê Alabaxé é aquilo que põe e dispõe de tudo e eu construi essa Casa.

P. Qual o orixá que rege o Ilê Jitundê?

R. Omolú

P. E qual o que rege esta Casa?

R. Oxóssi

P. Quantos Filhos de Santo tem no Ilê Alabaxé?

R. O llê Alabaxé tem mais de 200 Filhos de Santo. Tem muitos daqui de Maragojipe, Salvador, Sapeaçú, Cruz das Almas, Feira de Santana, Alagoinhas, Candeias, Madre de Deus, Rio de Janeiro, São Paulo, Belém do Pará, Minas, Rio- Grande.do Sul, Estados Unidos ...

P. Quando o senhor se tornou Babalorixá?

R. Em 1971. No dia 2 de fevereiro de 1971 recebi o cargo de Babalorixá, do meu Babalorixá Licio de Souza Moraes.

P. O Ilê Alabaxé tem projetos sociais?

Roberval e Pai Edinho
R. Tem, sim. (Fala Roberval): Nós damos aula de Iorubá, nós damos aulas de cânticos nós damos aulas de atabaque tem um grupo de capoeira que faz treinamento aqui, constituído aqui por nós. Edinho, praticamente uma vez no mês, da comida a essa população mais carente, aonde mais de 100 a 200 pessoas vem aqui buscar comida. Edinho tem projeto de construir uma creche, que começou ali (numa área do terreiro), mas não teve condição de terminar. Edinho tem um projeto de fazer na Casa o Lar dos Velhos, que é uma coisa que Edinho se dedica muito com crianças, com velhos. Então, essa coisa é ampla. A gente tem vontade de realizar algumas coisas, mas os subsídios ... O Ilê Alabaxé é mantido só por uma pessoa, que é o Babalorixá Edinho. Edinho não tem recursos federais, estadual, municipal. Tudo isso é feito por Edinho.

P. O senhor continua mantendo contato com o Terreiro Ilê Jitundê?

R. Continuo. O Ilê Jitundê, depois que meu Babalorixá morreu, eu assumi a posição de Babalorixá dado por ele, antes dele faltar. Ele já deixou isso na Federação e eu assumi o cargo e estou dando continuidade à Roça. Todas as obrigações é passada pela minha mão. Tudo é feito por mim. Não se faz nada na Roça sem a minha presença. De carrego ao axexê, de tudo. Tudo é passado por mim. Agora mesmo, tem uns dois meses, se foi um Ogê da Casa, velho nós fomos fazer o carrego. Tem Ogãs, tem tudo, mas quem vai fazer sou eu.

P. Quantos Filhos de Santo tem o Jitundê?

R. O Jitundê tem poucos filhos porque a maioria, muita gente, já foi embora. Tem uns 30 filhos ainda vivos.

P. Quantos anos tem que ele faleceu?

R. Fazem 19 anos agora em 26 de outubro. P. Qual o ciclo de festas do Jitundê? Continua havendo?

R. 1° do ano é o Olubajê. Todo ano ele fazia, eu dou continuidade. Nos 50 anos de Santo dele eu fiz uma festa muito bonita e veio vários Babalorixás, Ialorixás de vários lugares pra a festa. 1° do ano é Omolú 3 de maio, dia de Santa Cruz, é a festa de Oxóssi e São Pedro é a fogueira de Xangô. Só tem isso.

No dia do Tombamento
P. E o calendário de festas Alabaxé?

R. A primeira festa é em 2 de fevereiro. Uma homenagem que nós fazemos a Oxóssi. Depois vem a festa de Oxóssi, Corpus Christi. Varia entre maio e junho. Depois vem a festa do caboclo, no primeiro sábado de julho. Quando coincide o encerramento de Oxóssi ser no primeiro sábado de julho, conseqüentemente a festa do caboclo fica pro 2° sábado de julho. Depois, no dia 10 de agosto, é obrigação em louvor ao Orixá de minha Mãe, que é Irôko, Tempo. Depois, a festa de Oyá, que é o 1° sábado de dezembro. Ai encerra.

P. Quem freqüenta essas festas?

R. A comunidade e muita gente de fora, muitas pessoas importante. Ajuíza, que era daqui de Maragojipe, ela, o pai, a mãe, todos vinham. O Promotor, que hoje já não existe, Dr. Nélio ... Quem abriu aqui em Maragojipe pra vim um promotor e uma juíza fui eu, porque não iam nos candomblés. Começaram a vir aqui em Casa, ai começaram. Porque o povo tinha aquele receio de ir a candomblé. Mas aqui vem várias pessoas importantes: o Pastor Romário, da Assembléia de Deus, o Padre, muitos professores, muita gente importante, pessoas de outros Estados, de outros países que vem nas festas.

P. E a convivência com a Igreja Universal do Reino de Deus?

R. É uma religião que agride a nossa. A mim, eu nunca ... mas agride a meus irmãos está agredindo a mim também. A Universal é a pior religião que tem, porque o catolicismo ela não respeita. Ela não respeita ninguém. Então, se não respeita o candomblé não respeita a mim, não respeita ninguém. Então eu não gosto.

P. O senhor sabe o número de Terreiros que tem em Maragojipe? Qual o mais antigo?

R. Tem mais de 30, mas registrados tem 14 ou 15. Todos me respeitam, por sinal sou mais velho do que eles e são meus Irmãos de Santo.

R. Do Ketu é o nosso.

P. E no geral?

R. É o Pinho. Casa do Jêje. Rumpa Oaomé é o 1° candomblé de Maragojipe. Foi fundado em 25 de dezembro de 1658.

P. Também tem Terreiro Bantu?

R O Banto que tem aqui só é um. Eu sou o Pai de Santo de Ia. Eu que faço as obrigações da lalorixá. A obrigação dela de 14 anos quem fez foi eu, a de 21 anos quem fez foi eu, os netos quem confirmou foi eu, a neta, que é feita de Angorô, quem raspou foi eu. Na Casa dela só eu faço as obrigações. Tem outros terreiros aqui que eu vou fazer as obrigações, porque depois que meu pai de santo cufô (morreu), a maioria dos Filhos de Santo ficaram eu dando as obrigações.

R. Fevereiro de 1921.

P. O senhor sabe a data de fundação do Terreiro Jitundê?

P. O senhor tem apoio de algum órgão oficial?

R. Não, nunca tive. Eu comecei fazendo a base da creche. Tem alvenaria, tem tudo, mas não deu pra eu continuar. Aqui eu fazia funeral pra muita gente, fim de ano e inicio de ano: colégio, livros, vem às matrículas, vem a nota de livros, eu vou eu compro. Dia das Crianças eu faço presente, faço também carurú, já fiz caruru aqui no Dia das Crianças de 10.000 quiabos, pra atender as crianças, vem todas as crianças de Maragojipe.

P. Como é a relação do senhor com a Prefeitura de Maragojipe?

R. Boa. Muito boa. Também nunca fui procurar ele, nem também eles nunca me trouxeram nada. São meus amigos.

P. Quantos Filhos de Santo o senhor tem?

R. Eu tenho mais de 200. Entre Abiã e tudo vai a 300 filhos. Mas feitos, eu tenho mais de 200.

P. O que significa ser Pai de Santo na terra em que o Senhor nasceu?

R. Pra mim, eu acho assim: Eu sou respeitado na minha religião, de velho a criança me tomam a bênção onde eu passo. E eu acho muito importante, porque tenho sido muito bem visto como Babalorixá. Fui paranifo 5 vezes de colégio aqui. De formatura de magistério, de administração. Fui do Simões Filhos, 2 vezes fui do Polivalente 2 vezes e fui do Estadual umas 5 vezes. Afilhado de batismo eu tenho mais de 300 afilhados. Padrinho de casamento, mais de 50 vezes já fui. Eu tenho diploma de Irmão de São Bartolomeu. Aqui em Maragojipe eu nunca fui criticado. Todos me abraçam, todos confiam em mim.

P. Fale sobre as dificuldades que o senhor teve no começo do Terreiro aqui.

R. Quando eu vim pra cá eu arranjei fio de telefone, emendei pra colocar luz aqui. Fio de telefone da rua pra aqui, porque era muito caro. Pra ter aquela luz pro 1° candomblé que eu toquei aqui, que foi no mês de abril. No Barracão a gente comia, botava a esteira no chão, mas sempre tinha uma mesa pra as pessoas que vinha, mas eu com todos meus Filhos de Santo eu comia junto com eles. Eu ia pro Barracão, me sentava, botava comida deles na esteira, ficava ali sentado no banco comendo com eles. A cozinha era coberta de lona. O banheiro, a porta era de lona. Pra ir pra à parte aonde a gente dormia, a parte era de lona também. Todo mundo aqui bonitinho, tinha comida certinha, eu ia pra cozinha fazer comida, eu ajudava também o povo, todo mundo se dava bem, todo mundo achava bonito aquilo, todo mundo irmão. Quando chegava pessoas estranhas eu ia na casa de Domingos ver os talheres e voltava para fazer a mesa bonita pra servir o povo.

Ai a velha mandava os pratos dela, as coisas boas e eu servia aquele povo todo. Eu tenho cliente de 40 anos que ainda me acompanha. Muita gente que iniciou comigo continua comigo. Minhas 3 primeiras Filhas continuam comigo. Vão fazer agora, dia 6 de agosto, 33 anos de Santo, contínua comigo. O Santo aqui na Roça. São minhas amigas. Uma vai fazer agora 80 anos, em fevereiro. Já ta se arrumando pra fazer a festa. Não pode perder a minha presença, porque é loucura. E, realmente, as comidas daqui, temos as pessoas que cozinham bem aqui. Nos tínhamos uma Ekédi da Casa, que eu deixava na mão dela. Ela vendia fato. Foi uma das fundadoras comigo lqui. Cal'l'~a,va telha e tijolo pra a gente construir aqui. Gertrudes. Ela vendia fato. E ela vinha sábado, quando ele saia do fato ela vinha pra aqui pra botar a feijoada pra domingo, que tinha um adjuntório pra o povo vim me ajudar fazer as coisas. Passava o dia aqui e todo mundo comia. O mundo igual. Era fogo de lenha ai no quintal. Fazia aquelas melhores comidas. O povo diz por onde eu ando o quiabo me acompanha. Que aonde eu vou tem que ter quiabo. Porque ipre eu gostava de fazer um carurú. O povo já sabia que meu prato era carurú.

P. Quem lhe ajuda aqui no Terreiro?

R. Existe aqui esse, que é meu irmão, Domingos de MeIo Albuquerque, que é uma pessoa que me acompanha desde a hora que eu nascí no Santo. Ele é o Axogum da Roça. Ele que corta pra o meu Orixá. Desde que eu trouxe o meu Orixá pra ca ele é que corta o meu Orixá. E esse daqui, e é o meu Filho, Antonio Roberval França da Mata. É Babalossam da Roça. Eu viajo, ele toma conta da Casa. A mãe dele é feita também aqui: Diná. Já tem obrigações pagas. Ele veio, daqui ele se formou, daqui ele casou, já tem filhos, tudo aqui. Vereador pelo 3° mandato aqui e é uma pessoa, dentro do candomblé, que eu entrego tudo a ele. Se eu viajo, ou se eu não posso viajar, só ele sabe comprar o que eu quero, porque outra pessoa não compra como eu quero. E ele é uma pessoa que toma conta de tudo. Ele arruma ,o Barracão, ele que arruma quarto de Santo, ele que arruma as obrigações todas. Quando eu chego, eu desço, já é pra cortar pra o Santo, porque meus Filhos, todos, quem corta sou eu. Apesar de ter o Axogum da Roça, ele só corta pra o meu Santo. Ou então ele corta pra pessoas que eu não posso cortar, como no caso de marido de uma Filha de Santo minha ou uma pessoa assim, os 2 da mesma casa, então ele corta. Mas livrando disso, todos os meus Filhos de Santo quem corta sou eu. Barco de 12, Barco de 10, eu corto. O Obé (faca) vem pra minha mão, eu só entrego depois que eu termino de cortar. Terminei ali, depois que eu faço a entrega do Orixá e tal, tal e tal. Ai eu passo pra os outros Ogãs vim arrumar. Mas quem corta sou eu.

P. Maria Gertrudes da Conceição era Ekédi?

R. Ekédi.

P. Era do Orixá do Senhor?

R. Do meu Orixá, Oxóssi. Ekédi de Oxóssi.

P. Fale sobre os cargos daqui do Terreiro.

R. Domingos é o Axogum Roberval é o Babalossam Rosa é lalaxé da Roça Mãe Gertrudes era Iabassé da Roça. Nena é a Ekédi. Ta viva ainda. Já não anda, mas é a mulher da maior responsabilidade desta Casa. Ela arrumava tudo pra mim e me entregava em minhas mãos. Iniciou comigo hoje ela mora aqui ainda, em Maragojipe. Doutor Marcos, Ojuôbá Renato, que é Ojuôbá também. E tem Osvaldinho, é do Axogum esse mora no Rio Grande do Norte. Renato é Aboatum de Xangô e doutor Marcos é Abolossí, ou seja, o braço direito e o braço esquerdo de Xangô.

P. Quantas pessoas moram aqui no Terreiro?

R. 18 pessoas, fixas, residem aqui.

P. O senhor que mantém essas pessoas?

R. Sim

P. Qual a importância do tombamento do Terreiro Ilê Alabaxé?

R. O tombamento do Terreiro vai ser uma coisa muito importante na minha vida. Porque toda a minha vida foi dedicada a esse candomblé. Eu envelheci construindo esta Casa. E eu vou ter a maior felicidade, vivo ainda, vendo a minha Casa tombada. E sei que Oxóssi não vai ser jogado fora. Oxóssi vai ser eterno ai, tomando conta da Casa dele que eu construí. Que ele me deu direito. É a maior riqueza pra mim, vai ser a maior felicidade. Nunca vou esquecer vocês, nunca vou esquecer doutor Júlio Braga e as pessoas que estão olhando pra isso e me dando o direito de amanhã eu gritar e dizer: Oxossi é eterno, ele vai ficar e ninguém vai despachar ele, porque não vai ter briga, o que eu tinha que dar ao meu povo já dei. Dei casa a um, dei casa a outro, minhas irmãs eu ajudei. Meus netos, minhas sobrinhas, todas tem casa, tem tudo. Casa em Salvador. O que eu pude ajudar minha família eu ajudei. Ali embaixo eu tirei uma faixa, (de terra) vários lotes já dei, porque vou deixar a Roça dos Orixás. Isso aqui vai ser o Mundo dos Orixás. E vai ser eterno, se eu tiver esse direito. Eu vou agradecer muito, vocês nunca vão sair da minha memória.

P. O que significa a natureza para o senhor?

R. Tudo, porque Orixá é a natureza. Orixá é a vida e os matos, as folhas, é o que nos da vida, força e muito Axé, porque sem a folha nós não temos Axé. É a folha quem nos levanta e nos sustenta a nossa cumeeira. Sem as folhas nós não somos nada. Tratamos essas folhas com carinho e amor. Sem as folhas não existe nada, porque terra é mato, é quem sustenta os Orixás. Os Orixás são cobertos pelas folhas, porque das folhas vêm o domínio do Axé, da bondade. As folhas servem pra tudo dentro do candomblé. Tanto pra vida como pra morte.

P. E a água?

R. A água é tudo na vida, também. Porque sem a água nós não podemos purificar os Orixás. A água purifica e lava todas as maldades, tira todos os negativos de cima de todos nós. A água purifica. É muito importante a água. Sem a água a gente não vive.

P. E os animais?

R. Os animais, no caso as criações - bodes, essas coisas - nós usamos bode, cabra, essas coisas, porque hoje estão condenando se usar sangue, Ejé, em cima do ibá (assentamento), mas eu encontrei isso dos meus antepassados e eu não posso mudar a minha origem que eu aprendi, que eu encontrei. Então, se o bode é pra o Orixá, é o bode, é os galos, pato, conquém, pombo, isso tudo entra pra a obrigação, porque o que acontece: todas as minhas obrigações que eu participei e tudo isso que eu recebi foi levado pelo meu Orixá. O Orixá recebeu. Então hoje eu não posso mudar pros meus filhos, tirar tudo que recebi. Eu sei que eu consegui muito Axé com as coisas que meu Pai fez pra mim. Porque eu vou tirar dos meus Filhos? Eu' quero que eles também cresçam como eu cresci. Então os animais pra mim, no candomblé, são sagrados. Existe. A obrigação existe, sim. Não pode acontecer é que muitas Casas, muito tem sido feito com os animais, porque tem animais que não entra em uma obrigação. Um bode môcho, vai ver qual o Orixá que pega aquele bode môcho. Nem todo Orixá aceita aquele bode.

P. E a respeito do carneiro?

R. É porque na nossa Casa, Iansã, o poder é de Iansã, é o meu Ajuntó, é o segundo Orixá nessa Casa. Iansã comanda essa Casa. Ela é a Mãe da Casa, ela é quem segura e é a maior Kizila, é o maior Ó, numa Casa de Iansã, é um carneiro, é um agutã (carneiro) cortar. E nós não cortamos. Nem um tapete com couro de agutã na minha Casa não entra. Porque é um Orixá que nós respeitamos, é um Orixá que faz parte da minha vida. Mas, a parte certa tem que ser se obrigação é bode, se é cabra, eu não deixo de fazer as obrigações. Agora, tem parte de Orixá, como Obaluaê, tem Obaluaê que come porco. Pra a gente fazer uma obrigação dessa tem que ter muito cuidado. São animais que precisa muito carinho, muito respeito, pra ir numa obrigação dessa. Porque tem pessoas que vem de uma obrigação e não quer manter aquele resguardo. Então, é preferível não cortar esse animal para o seu Santo. Pra você fazer e não cumprir seu resguardo, então não corte um Eledé pra botar... do seu Santo. É um animal que precisa muito respeito pra não ter uma decepção grande e não dar errado a vida. A gente quer fazer a obrigação de um Filho e quer ver ele prosperar e não se arriar.

P. Qual a clientela do curso de Yorubá?

R. Nós atendemos não só as pessoas daqui do Ilê Alabaxé como também de outros Terreiros. Da mais ou menos 70 pessoas, grande parte de pessoas idosas. 80% é de jovens, Ogãs e Ekédis, que estão iniciando agora, começando agora aqui na Casa, na Casa de Rosete, na Casa de Jaci, na própria Casa de Kissassi, que é Terreiro de Angola, mas está presente. A Filha Chica. Então é em torno de 70 a 80 pessoas.

P. Quais são os dias desse curso?

R. Nós começamos, geralmente, no período de festas do Babalorixá. Nós damos assim uma vez no mês. O mês de maio e junho a gente da intensivo, o curso não pára. Agosto a gente não da, porque é período de festas em Maragojipe. A partir de novembro a gente começa até dezembro. São períodos. Capoeira, são duas a 3 vezes no mês. Tudo é feito no Barracão. Agora, tem um detalhe: a gente só ensaia com pessoas do Axé. Todo, curso de Iorubá, todo curso de cântico, todo curso de atabaque, é pra pessoas do Axé, iniciantes. E só pra a comunidade do candomblé.

P. Como se dá à convivência dos jovens com os mais velhos aqui?

R. Há um respeito muito grande. Até porque a gente envolve os jovens no trabalho social. A gente envolve os jovens pra dar comida à comunidade, pra estar atendendo, pra estar despachando. No cântico, a gente envolve as pessoas pra ter mais vontade de cantar, tem mais desenvoltura. Hoje os jovens respeitam muito mais.

P. O senhor atende muitas pessoas aqui em Maragojipe?

R. Atendo. Muita gente, porque esse povo precisa e chega dia de quinta-feira, ai vem um e pergunta: qual é o dia que o senhor fez caridade? Eu digo: meu filho, eu faço todos os dias. No que precisar, pode vim que eu atendo. Eu atendo muita gente.

P. Os Alabês são mais jovens ou mais idosos?

R. Mais idosos.

P.Tem jovens se interessando em ser Alabê?

R. Tem, também. Aqui tem muitos se interessando pra aprender. Por sinal, nós temos aqui meninos que tocam muito bem. Meu neto mesmo, tem 20 anos, toca muito bem. Tem outros jovens que toca muito bem. Agora, pra arrumar o cargo de Alabê tem que ser uma pessoa com mais idade, porque impõe mais respeito.

Agradecimentos do Pai Edinho
P. O senhor joga búzios?

R. Jogo, sim.

P. É verdade que somente quem é Babalaô pode jogar?

R. Búzio não é uma advinhação. Nós nascemos com dom de ser Oluô, o Babalorixá, porque nem todos tiveram a felicidade de ter esse dom de búzios. Porque o búzio é um dom e quando a pessoa traz o dom não precisa ser Babalaô Oluô. O Babalorixá, ele sente, ele vai pra o jogo, ele vai saber o que vem. Porque não é jogar búzio, contar búzio e advinhar. Não existe advinhação. Existe, sim, dom. Porque nós temos juramento. Nem caluniar e nem mentir. Tem que sair e ver aquilo que vem. Porque pra você ser um bom Oluô, você tem que corresponder aquilo que o Orixá lhe dá. Nós recebemos algo superior que a gente não sabe de onde vem. Então, é uma mensagem que você recebe. Isso é muito importante. Antes, realmente, era escolhido um Oluô. Preparava para jogar. Existia, você recolhia um Iaô, você tinha que ir pra outra Casa jogar pra fazer. É como o Axêxê: você que faz o Orixá, você tem que ta preparado pra vida e pra morte. Porque não é possível que eu faça o Orixá e vem ou faz uma Filha de Santo pra procurar uma outra pra vir botar o Axêxê. Se eu fiz aquele, se a gente tem um filho, a gente tem que ta preparado para a alegria e pra a tristeza. Graças a Deus, aqui na nossa Casa, eu nunca precisei de trazer ninguém de fora. Se for pessoas que eu possa arriar a cuia, eu arreio a cuia e eles executam o Azerim. Eles cantam, eles fazem. Eu faço tudo. Se for uma pessoa que eu não posso arriar a cuia, eu pego um Ogã da Casa e mando arriar a cuia. Um superior a mim. O meu Pai de Santo mesmo, tem os Ogãs dele e a primeira irmã dele, que era Kauíze, que morou comigo, arriar a cuia, porque eu não podia pegar, era meu Pai eu não podia pegar em nada. Mas eu participei até a hora do Obí. Ele tinha que ta na frente pra ver se tava jogando certo. E acompanhei, estou aqui até hoje. E o jogo é a coisa mais importante dentro do candomblé. O Babalorixá tem que ter a sua mão de jogo. Tem que saber contar o jogo.

P. E Pai Lício? Qual era a formação dele?

R. Ele era pedreiro. Um bom pedreiro. Por sinal, aquela igreja de São Francisco, muitos trabalhos ele faz ali. Além de ser um bom pedreiro, ele era mestre de acabamento. Ele também costurava muito. Ele fazia casa de abelha, tudo isso ele fazia. Quando eu fiz 25 anos de Santo ele me deu uma camisa toda aberta em beju. Costurava muito. Fazia muito licor pra vender. Fazia aquele mundo de licor de maracujá pra vender aqui em Maragojipe. Ele era de Maragojipe, mas já morava há mais de 60 anos lá em São Francisco do Paraguaçu. Quando ele adoeceu ele veio embora, morreu aqui em casa. Quando meu Pai de Santo morreu eu já tinha feito a obrigação de 21 anos. Já estava com 25 anos de Santo. A minha obrigação de 21 anos foi engraçada: veio muita gente de fora. Muita Ialorixá, do Rio de Janeiro, muita gente da Casa de seu Zezinho do Portão, gente do Gantois, gente do Alaketo, muita gente de fora. lalorixá, Babalorixá. E quem veio cantar foi o Alabê da Casa de seu Manoel Rufino. E meu Pai de Santo já estava muito doente. E ele me pediu, me chamou e disse: "meu filho, eu sei o que você ta gastando, pelo amor de Deus! Eu não vou pegar na sua obrigação". Eu disse: O que meu Pai? O senhor não vai pegar? Ele disse: "não, eu não vou pegar. Você me garante?" eu disse: garantir o que? "Se você não aceitar eu vou embora não fico com a sua obrigação. Meu filho, que adianta eu fazer a sua obrigação hoje e amanhã eu morrer?" eu disse: meu Pai, se você fizer a minha obrigação hoje e morrer amanhã, eu vou gritar, vou chorar, mas estou satisfeito porque outra mão não botou na minha cabeça. No dia da festa, um mundo de gente nesta casa, que era menor, um corredor comprido, até lá embaixo, dos mais velhos aos mais novos sentados. Meus Filhos de Santo, minhas Irmãs de Santo, a Família do Santo toda aqui completa. Na hora, no quarto do Santo, eu disse: não quero ninguém no quarto de Oxalá, na hora do meu Borí. Só vai ficar a Mãe Criadeira , que me criou quando eu fiz Santo - Mãe Luz - ele, Mingo, e Nena, assistindo. Eu disse: meu Pai, o senhor começou termine. Não foi o senhor que começou? Termine. Entreguei minha cabeça e falei: se o senhor for embora amanhã eu estou satisfeito,foi o senhor que concluiu a obrigação. Eu fui pra a sua Casa com uma sandália havaiana, amarrada de arame, fazer o Santo. Hoje eu tenho pra dar. Ai ele me olhou, chorando. Eu disse: Faça a minha obrigação. Ele fez a minha obrigação. Uma obrigação muito bonita. Quando saiu da obrigação, eu disse: olhe o senhor não esqueça que quando eu entrei na sua casa eu levei 2 calças e uma camisa, enrolada com papel e uma sandália calçado. Eu vim de roupa, foi o senhor que me deu. Eu não gastei 1 centavo com meu Pai de Santo. Ele me deu tudo. Agora, minha despesa ia da casa da mãe de Mingo ia aos balaios. Mas tudo do Axé foi meu Pai de Santo que me deu. Tudo quem me deu foi ele. Eu fui muito feliz com o Pai de Santo que tive. Saiu da minha casa. Ele tem terreno comprado pra ninguém arrancar ele. Comprei o chão, foi enterrado aqui em Maragojipe. Ta lá, no cantinho dele. Ninguém tira. É perpétua, a sepultura dele. Saiu daqui cantando. da minha Casa até o cemitério, acompanhado por todos os meus Filhos, que vieram todos. Todos vieram, participaram, me deram aquele amor, aquele calor. Ele era muito bom pra os meus Filhos de Santo e meus Filhos também pra ele. Quando ele fez 25 anos de Santo eu reuni todos seus Filhos de Santo pra arrumar a Casa dele, que lá não tinha energia. No dia que ele botou luz eu levei uma geladeira, encaixotada. Levamos mobília de quarto, cadeira-do-papai, uma máquina de costura. Fiz aquela festa, aquelas lembranças todas. Foi uma festa bonita. Ele chorou, ele me abraçou. Agora, ele falava porque eu tirei um bendito colchão de capim que ele dormia. Me xingou todo porque eu tirei o colchão de capim. Joguei o colchão fora, toquei logo fogo. Quando ele voltou, tava o colchão de mola. Ele saiu procurando onde eu tinha escondido. Mãe Bárbara disse: "Você ta chorando de barriga cheia! Ele já queimou. Você é feliz com o filho que você tem, Lício". Mas era assim a gente terminava em graça, mas eu cumpria as minhas obrigações e nunca deixei meu Pai de Santo faltar nada. Qualquer coisa que tinha, eu pegava uma canoa e ia ver ele. Consegui aposentar ele nos reunimos e aposentamos ele. Quando foi embora já estava aposentado. Foi um amigo, irmão, pai.

P. Fale sobre Pai Rufino.

R. Ele falava que aos 13 anos ele vendia fato, botava gamela na cabeça e ia vender fato. Espichava o cabelo, porque o cabelo era muito duro, e ele passava um negócio pra o cabelo ficar liso. Foi quando ele veio fazer o Santo, e fez o Santo, e que ai todo mundo tinha um diploma disso e daquilo e ele não tinha. Ai ele foi, pagou a uma pessoa pra tirar um diploma dele de datilografia, que ele nunca foi, mas ele pagou porque queria um diploma na parede, porque todo mundo tinha e ele não tinha. Ele batalhou muito, ele foi preso ... ele recolheu um Barco. Morava na Quitanda do Capim. O Barco dele acho que foi de 7 yaô. E foram presos, quebraram tudo. Quebraram a Bacia de Oxum, que era de Macau. Me lembro que ele me contava e chorava. Quebraram a Bacia de Oxum e foi todo mundo preso. Na hora quando a carrocinha - que chamavam - que foram presos, Oxalá pegou uma das yaôs, dentro da cadeia. Ai o investigador deu ordem de que não era pra ter prendido o candomblé de seu Manoel Rufino. Mas ele bateu em Rufino, eles quebraram os Ibás de Santo. Esta pessoa se acabou na Ladeira do Canto da Cruz. A gente descia de bonde, da Liberdade, e passava ali. Ele descia comigo pra fazer compras. Ele de chapéu, de óculos. Ai tinha aquele homem sentado, num calhamaço, com uma cuia. Ele ai tirava uma moeda, batia assim e dizia: " Olhe sou eu, Rufino, aquele que você quebrou a Bacia de Oxum, tem aqui uma moeda para você”. Ele dizia que era pra ele lembrar que estava dando à ele. "Ele hoje esta precisando de meu dinheiro pra comprar um pão". Se acabou na Ladeira. E outras coisas. Ele (Rufino) sempre foi dono de si. Tinha uma natureza forte, mas ele tinha um coração bom, se você chegasse e dissesse:Eu vim ver Oxum, eu vim bater a cabeça para Oxum pronto, ele já se derretia, porque foi ver a Mãe dele. Ele podia esta brigando com quem fosse, a pessoa batia a cabeça e chamava por Oxum, acabava a briga. Mas ele foi muito perseguido pela policia, na Liberdade. Depois ele foi pro Beiru e ai conseguiu a Roça, que era uma das maiores Roças na Bahia. Depois acabou, foi uma tristeza pra gente. Nós pegamos o Axexê, porque todo ano eu ajudo, mando alguma coisa pra a obrigação de Oxum. No dia 13 de dezembro tem a obrigação de Oxum, lá. E aqui também eu dou comida a Oxum dele. Todo 13 de dezembro eu arreio uma oferenda pra o Oxum dele aqui em Casa e eu sou correspondido, eu sei que eu sou correspondido. Teve um ano, que eu vi alguém dizer assim. "Tantos anos de Pai Rufino de morto e Edinho faz essa obrigação pra Oxum". Eu disse: Oh, minha Mãe! Prove que você esta aqui comigo. O cordão da bandeira caiu no Barracão, assim, nos meus pés. Bati a cabeça no chão, pedi a bênção à ela pois sabia que ela estava presente, me ouvindo. Rufino foi uma pessoa que respeitou muito o candomblé, mas ele não era muito ligado às outras Casas não. Ele ia ajudar e tudo, mas ele sempre foi reservado. Só dona Menininha era que tinha um laço muito grande com ele. Tanto assim, que as 3 filhas dele ele deu pra ela fazer o Santo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Visita da Família Real a Maragogipe

DO BLOG: Este é um fragmento do Jornal Cachoeira exposto no livro de Fernando Sá descrevendo a solene recepção que os maragogipanos fizeram ao Imperador Dom Pedro II, em 09 de novembro de 1859, depois que os mesmos chegaram no vapor Pirajá.

Vale ressaltar que, no livro de Fernando Sá, ele troca o nome Maragogipe, com o grafema "G", para Maragojpe com o grafema "J" e essa troca é um erro. Em minhas pesquisas, descobri que parte desse texto está no livro "Diário da Viagem ao Norte do Brasil" escrito pelo próprio D. Pedro II. E lá, Maragogipe está escrito com o grafema "G". Outros detalhes vou preferi que o leitor descobra por si, pois vale a análise do documento. Por fim, será interessante ler alguns comentários sobre o mesmo.

Eram três horas mais ou menos, quando avistou-se o vapor que conduzia os augustos visitantes; indo ao seu encontro, em uma canoa ricamente preparada, o juiz municipal, para receber as determinações imperiais; voltou pouco depois que a boa nova de que S.S.M.M. desembarcariam já.

Logo que o escaler imperial chegou ao lugar Cajá, foi passado por entre alas de canoas todas embandeiradas e tripuladas por homens vestidos de alvo, cintos escarlates e bonéis azuis, os quis não cessavam de dar vivas e atirar foguetes.

Chegado este cortejo marítimo ao porto do mesmo nome, foi recebido por música que tocava o hino nacional, havendo por essa ocasião uma salva de 101 granadas que simulavam perfeitamente tiros de canhão.

O escaler seguiu rio acima até o Porto Grande, onde ao aproximar-se S.M. o Imperador mostrou-se de pé, o que produziu no imenso povo que o esperava a mais incompreensível emoção, o mais frenético entusiasmo, traduzido perfeitamente pelo grito uníssono de – Viva o Imperador – Viva a Imperatriz – que soava de todos os lados.

Este lugar estava elegantemente preparado. Em toda extensão da ponte que se prolonga até o Porto das Vagas se viam tremular das diversas nações aliadas e envolta com outras nacionais, o que produzia um não sei que de majestoso ao completar-se o matiz que faziam ao espaço com o alvor da mesma ponte, toda caiada de novo.

No centro do cais estendia-se até o meio do rio, uma larga escadaria tapetizada de amarelo, havendo ao lado desta escada corrimões de gradaria que espaçados por bonitos pedestais, onde descansavam vasos bem talhados plantados de craveiros naturais que se curvam com o peso da flor pendentes de todas as hastes. O mesmo se via em toda frente do cais, no qual balançavam-se bandeiras imperiais. Terminada a escada, elevava-se pouco adiante, um arco de cetim carmesim semeado de rosas brancas, tendo no centro uma coroa imperial descansada sobre um losango, no meio do qual se lia o seguinte:

De Maragogipe o povo
Com respeito o mais profundo
Saúda a Imperatriz
Saúda a Pedro Segundo

Em seguida a este arco estavam formadas em alas vinte meninas vestidas de alvo, com cestinhas cheias de flores, as quais representavam as vinte províncias, como se via na fita verde que cada uma trazia a tiracolo com o nome da província em letras de ouro. Uma delas, a Bahia, aproximou-se de S.M. a Imperatriz lhe espargiu flores, o que imitaram as outras, recitando aquela, com voz firme e maviosa, o seguinte soneto:

Submissão, respeito, amor, saudade,
Guiam meus passos nessa doce empresa:
Venho oferta-vos, ínclita Princesa,
Este raminho, símbolo de amizade.

Despido da lisonja e da vaidade,
Nele achareis somente singeleza:
É sem ornato e pobre de beleza,
Mas rica de infantil simplicidade.

Simples raminho, pura gratidão,
Vai sumisso, segue sem receio
Para, ante o trono, beijar a augusta mão

Acolhei-o Senhora, em vosso seio,
Daí-lhe, benigna, vossa aceitação
Que em vossos gestos já contemplo e vejo.

Mais adiante estavam meninos vestidos também de alvo e com fitas escarlates e tiracolo lendo-se nela os nomes dos rios mais notáveis do Império. Um deles, o Paraguaçu, chegando-se a S.M. o Imperador, entregou-lhe um ramalhete de cravos, enquanto os mais o cobriam de rosas dizendo aquele a poesia que segue:

Eis, Senhor, vassalos vossos
Que para vos defender
Brasileiros pequeninos
Estão aprendendo a ler.

S.S.M.M. receberam estas demonstrações de inocência com a mais cordial satisfação. A seis passos de distância estava o pavilhão para a cerimônia do Pax Tecum – para onde S.S.M.M. se encaminharam e depois de beijarem a Cruz, o Presidente da Câmara passou a entregar as chaves da cidade, recitando um bem elaborado discurso que atentamente foi ouvido por S.S.M.M., ao qual dignou-se responder, S.M. o Imperador: “Agradeço sobremaneira à Câmara da cidade de Maragogipe”.

Este barracão estava muito bem preparado. Sustentava o seu teto forrado de cetim branco, seis colunas dóricas, forradas de cetim azul claro, tomadas por festões de flores artificiais. No frontispício estavam dois anjos que sustentavam uma bandeira com a inscrição: “Viva o Imperador do Brasil”. Daí seguiram S.S.M.M. em baixo do palio, levados pelos membros da Câmara, para a Igreja Matriz. Em todo este trânsito as flores caíam constantemente sobre S.S.M.M. e os vivas confundidos com os repiques dos sinos, o estoirar dos foguetes e a melodia da música faziam o que há de mais belo e majestoso.

S.S.M.M. fizeram oração na capela do S.S. Sacramento. A igreja estava decente; o trono do altar-mor todo aceso, e do mesmo modo todos os altares. Voltaram depois para o Paço da Câmara, onde estava arvorado o pavilhão imperial. Logo que aí chegaram, S.M. o Imperador, disse para os da sua comitiva: “Maragogipe é uma cidade importante, não é possível ser vista em hora e meia, portanto está alterado o programa por culpa de quem me iludiu; durmo aqui.

O regozijo que causou esta resolução não é possível explicar. Não se via senão o povo correr cheio de entusiasmo pelas ruas repetindo a notícia agradável de que S.M. tinha resolvido dormir nesta cidade! Era uma confusão, era um labirinto de alegria.

Dez cavalos ricamente ajaezados esperavam S.M. e a sua comitiva, além de outros menos enfeitados. S.M. montando, seguiu caminho do hospital. Na extremidade de uma rua que abre caminho para o mesmo hospital havia um arco todo alvo, ornado de folhas e flores naturais, tendo seu frontispício o seguinte:

Das Secílias a – Estrela
Veio ao Norte do Brasil
Prodigalizar bondade
Dar a nós venturas mil

Chegando ao hospital, encaminhou-se à capela que estava ricamente coberta de cetim e galões, sendo recebido pelo provedor e mais membros da mesa. Fez oração, percorrendo depois toda a casa, no que mostrou-se satisfeito. Consolou e conversou com os doentes e, especialmente com um preto velho de cento e tantos anos, a quem S.M. ouviu por muito tempo. Entregou ao provedor, para esmola da casa, um conto de réis. Daí foi ao lugar que serve de cemitério. O seu coração paternal enterneceu-se à vista deste lugar coberto de mato que serve de asilo aos mortos e sabendo que havia um projeto para construir-se um cemitério decente, deu 500$000 para a obra; e o Presidente da Província aí se achava prometeu satisfazer essa necessidade pública.

Voltando para a cidade, visitou as aulas públicas de primeiras letras e latim, demorando-se algum tempo na do ensino primário do sexo masculino, onde, ao entrar os meninos entoaram o – Viva a S.S.M.M. -. Pediu o livro de matrícula, no qual estavam matriculados 60 meninos. Exigiu as escritas, que lhe foram presentes, examinando-as minuciosamente; mandou ler a dois meninos; ditou uma conta de repartir que foi feita pelos alunos; mandou o professor interrogá-los em doutrina, e este o fez na História Sagrada, tomando por ponto o Dilúvio, o nome do primeiro homem, etc. Findo o que S.M. perguntou a um dos meninos: ”- Onde está Jesus Cristo?” que lhe foi respondido belamente. S.M. dando mostra de inteira satisfação deu por finda a visita neste lugar.

Foi a capela do Cajá, à qual deu 200$000, fazendo o mesmo no altar do S. Coração de Jesus. É escusado dizer que nuvens de povo se achavam apinhadas em todos os caminhos vitoriando os augustos visitantes.

Foi também à coletoria geral que estava toda iluminada e cheia de bandeiras imperiais; porém, sendo já noite determinou ao Exmo Presidente para exigir do coletor um relatório do seu movimento.

Eram mais de 7 horas quando voltava ao – Paço - onde chegando a uma das janelas contemplou o bonito dêste lugar. 

De feito, a praça de Maragogipe estava elegante. Aplainada, como ainda está, se via nos quatro ângulos do seu quadrado, elevarem-se arcos triunfais cobertos de cetim e flores artificiais, suspendendo-se no centro de todos eles a bandeira nacional que garbosa se balançava para aqui e ali côo que mais orgulhosa, afrontando rajadas de vento sul que não cessavam de soprar com alguma intensidade.

A cor amarela com que estavam caiadas todas as casas da praça harmonizava-se otimamente com o verde das bandeiras das janelas e portas; e esse quadro mais resplandecia quando, à noite, todas se iluminaram bem como o resto da cidade. A praça de Maragogipe estava verdadeiramente imperial. S.S.M.M. se dignaram dar beija-mão, seguindo-se depois o jantar, para o qual tiveram a honra de ser convidados, o deputado e suplente deste círculo, Câmara Municipal, comandante superior juiz municipal e senhoras que se achavam no Paço.

Findo o jantar, S.M. procurou saber do Presidente da Câmara e estado da sua receita e despesa, determinando-lhe que fizesse disto um relatório e nele declarasse quais os melhoramentos que precisava este município. Mandou vir à sua presença o carcereiro, do qual indagou sobre as prisões, asseio e conservação delas, número de presos, sexos, crimes tempos de prisão, se estavam todos processados, quando teve lugar a última visita; procurando o livro respectivo que lhe foi apresentado, S.M. mostrou-se insatisfeito, pois via ter-se visitando no último de julho, quando há obrigação de ser todos os meses.

Indagou do comandante do batalhão no 34 quantas praças tinha o seu corpo, quantas se apresentaram naquele dia, se havia armamento. Ouvindo em resposta à primeira pergunta: 575, a segunda 144 1 a última: nenhum. Mandou entregar ao Presidente da Câmara e Juiz Municipal 500$000 para os pobres. S.M. a Imperatriz, determinou que se levasse para bordo água de Maragogipe, pois muito tinha gostado dela.

A Sociedade Filarmônica de S. Felipe veio da roça render homenagem aos augustos hospedes, postando-se na praça e tocando diversas de harmonia até alta noite. O mesmo fez a música do Batalhão no 52 que estava de guarda de honra. Houve muitas poesias; S.M. o Imperador assistia a este regozijo do povo em uma das janelas do Paço com muita satisfação. A cidade, nesta noite, ficou em completo dia; não se dormiu, animando mas prazer a lua estava brilhando.

Às quatro horas da madrugada, de 10, foi anunciada a partida de S.S.M.M. Poucas pessoas tiveram de aprontar-se. S.S.M.M., depois de tomarem café, seguiram, acompanhadas da mesma forma do dia anterior, para o embarque, onde deixaram este povo envolto na mais pungente saudade. Muitas lágrimas foram vertidas nestas ocasião. Tiveram a honra de acompanhar S.S.M.M. até a bordo do vapor, a Câmara Municipal, Juiz Municipal, comandante do Corpo do Exército e várias pessoas gradas.

Fonte: Fernando Sá. In: Maragogipe no tempo e no espaço. 2000

RESENHA: Movimento e pensamento operário antes de Marx, na obra de Osvaldo Coggiola

Por Zevaldo Sousa

Segundo Osvaldo Cogiolla “a classe operária moderna é o produto do desenvolvimento do modo de produção capitalista” (COGGIOLLA, p.7). Pra que essa classe fosse formada, precisou ter condições econômicas necessárias, para que, houvesse uma mudança nas formas de apropriação privada do trabalho. Essa mudança implicava na obrigação de trabalhar para outrem, ou seja, a essência do moderno sistema econômico do capitalismo é a compra/venda da força de trabalho em troca de um salário. Foi aproximadamente na segunda metade do século XVI e começo do XVII, que esse sistema nasceu e começou a crescer e se fixar. O crescimento decisivo desse sistema ocorrerá, a partir do século XVIII, quando a “Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, com a qual o capitalismo consolidaria seu domínio da produção e criaria as bases da sua expansão em escala mundial” (COGGIOLLA, p.11). Esse momento será transitório, de uma fase mais imatura e primitivo do capitalismo, para uma outra, em que, irá ser criada sua própria forma de produção, levando em conta a divisão do trabalho para o interior da fábrica. A partir desse momento, existirá a fábrica, o operário e os meios de produção.

As bases para a incorporação dos progressos técnicos à produção em larga escala só estariam lançadas quando além de tudo isso, a população começasse a crescer, e com a diminuição do índice de mortalidade infantil, controle de doenças epidêmicas, generalização de práticas higiênicas, etc. O sistema estaria definitivamente implantado.

É dentro das fábricas que surgem a nove classe social, a classe operária, submetida nesta fase inicial a esgotantes jornadas de trabalho” (COGGIOLLA, p.15). Michelle Perrot, irá dizer que, nesta fase, os donos estariam muito preocupados em combater o furto de matérias-primas e controle de qualidade de seus produtos. Várias regras surgiriam, ela citará três princípios básicos que regiam a organização de uma fábrica: O político, denotaria poder; o técnico, racionalidade na industria e por fim, a vigilância constante, tanto de pessoas, como de produtos. A fábrica precisa de regras, e regulamentos com proibições tanto para que a fábrica tivesse um bom funcionamento, quanto morais, evitando confusões, para isso, as penalidades não eram leves, e cada caso, tinha a sua especificidade na hora de punir.

A família aqui neste momento era fundamental, o chefe, segundo Perrot, era o próprio pai, pois se os empregados se revoltassem, estariam se revoltando contra seu próprio pai, e todos seriam punidos, era tudo ou nada, a união para não morrer de fome, levava todos da família a trabalhar. O paternalismo já estava se firmando, e grande parte dos funcionários queria esse sistema, mas este tinha seus problemas, e logo perderiam seu lugar. Até porque, leis contra o trabalho infantil, começariam a ser criadas.

Hobsbawn descreverá que a Revolução Industrial será o processo de transformação mais radical das condições de vida e afetará a todos os níveis da sociedade, inclusive a família. Serão homens e mulheres “livres” e despojados de toda posse, que seriam obrigados a trabalhar, vender sua força, transformando-se em operários modernos. Aliás, não somente homens e mulheres adultos, mais jovens e crianças, o que gerará uma grande quantidade de mão-de-obra, que levariam ao crescimento da indústria têxtil e metalúrgica. Há neste momento um processo de disciplinamento constante. Alguns trabalhadores ganharam certa autonomia, principalmente os metarlúrgicos, devido uma questão prática, que só era revelada para os seus filhos, como forma de mantê-los empregados, e também como forma de refrear a produção. Sendo assim, diversas leis começariam a ser criadas, para controlar essas classes “ditas” perigosas, havia uma preocupação com a subsistência dessas. A consolidação do sistema capitalista, dará com a absorção da mão-de-obra de reserva por parte das inovações tecnológicas, principalmente com construções de navios e estradas de ferro, que transformará esse operariado em fixo e hereditário.

Mas quando surgiu o movimento operário? E o que é movimento operário? Cogiolla cita palavras de Blanqui, revolucionário democrático francês, “É a profissão de 30 milhões de franceses que vivem do seu trabalho e são despojados de seus direitos públicos” (COGIOLLA, p.23). Aqui esse conceito aparecerá, no seu antigo sentido, no da república romana. Segundo Cogiolla, se seguirmos esse sentido, podemos estar de acordo com Thompson, que afirmará que: “a classe operária formou-se a si própria tanto quanto foi formada”. (COGGIOLA, p.23).

Segundo Cogiolla, “o erro desse autor foi enfatizar unilateralmente o primeiro termo (o “fazer-se” da classe operária), operando uma cisão improcedente entre a existência e a consciência da classe: “a experiência da classe é determinada pelas relações de produção nas quais os homens nasceram, ou entraram involutariamente.” (COGIOLLA, p. 23-4)

Tanto Perrot, como Cogiolla, irão enfatizar que foi no século XIX que surgiram rebeliões, greves, inclusive com destruição de fábricas, lutas. A situação tornaria insustentável e criou as possibilidades para o surgimento de movimentos trabalhistas e socialistas.

Marx irá dizer que os operários são a única potência social, devido o seu número, contudo a sua desorganização e desunião, é quem atrapalha no processo de modificação. Todavia esse processo mudaria, ao poucos, em 1838, foi lançado a Carta, também conhecida como cartismo, lançará pois, um programa democrático, organizando massas de trabalhadores. Em 1847, segundo Cogiolla “a primeira vitória histórica da classe operária foi produto de um movimento claramente político.” (COGIOLLA, p.36) eles conquistariam a jornada de 10 horas.

Em 1864, quando aconteceu a Primeira Internacional Operária, a questão do sufrágio universal, que já existia desde o cartismo, seria componente central dessa onda revolucionária. Já na Internacional Socialista ou Segunda Internacional, será a redução da jornada de trabalho, a grande campanha.

O pensamento operário, surgirá principalmente de duas correntes, o socialismo e o comunismo. O Socialismo “foi uma palavra para designar aqueles que acreditam na origem contratual de uma sociedade de homens livres e iguais” (COGIOLLA, p.39-40). Três utopistas surgiriam: Saint Simon, Fourier, e Owen, cada um buscará meios para resolver os problemas da sociedade, de maneiras diferenciadas, tendo como traço comum, agirem como representantes do operariado, que segundo Cogiolla, já haviam surgido como produto histórico.

O comunismo seria segundo Cogiolla, “a tendência radical das revoluções democráticas, caracterizada pelas suas propostas igualitárias.” (COGIOLLA, p.50). Engels, dirá que o comunismo “é um sistema segundo o qual a terra deve ser bem comum dos homens. Cada um deve trabalhar e produzir de acordo com as suas capacidades, e gozar e consumir de acordo com as suas forças” (COGIOLLA, p.51). O Socialismo segundo Marx e Engels, será a primeira fase do sistema comunista, essa é mais moderada.

Engels escreverá que a democracia é o comunismo e que essa se tornou em principio proletário, de massas. A Liga dos Justos, em 1847, lançará programa redigido por Marx e Engels, o Manifesto Comunista, “nascia assim como movimento político organizado e internacional.” (COGIOLLA, p.58)

Referências:
COGIOLLA, Osvaldo. “Movimento e pensamento operário antes de Marx”. Editora Brasiliense,1991.
PERROT, Michelle. “As três eras da disciplina industrial na França do século XIX”. In: Os Excluídos da História, operário, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1988